22 de Março: Dia Mundial da Água
 

Publicado em 22/03/2013 às 8:00

 

ÁGUA: ACESSO DECRESCENTE; IMPORTÂNCIA CRESCENTE

 

Afonso Rodrigues de Aquino e Francisco Paletta
Faculdade de Engenharia – FAAP
[email protected] e [email protected]  
Publicado na Revista Brasileira de Pesquisa e Desenvolvimento
Vol. 14 - nº 1 - Março de 2012

 

 

INTRODUÇÃO

A água, também denominada como solvente universal ou fonte da vida, não pode ser classificada como um bem finito, não renovável, embora a quantidade total dessa substância no planeta Terra já tenha sido inventariada. Por estar submetida ao denominado ciclo hidrogeológico, pelo menos para fins energéticos ela é classificada como um bem renovável. Sua presença é vital para os seres vivos, e o simples desaparecimento de uma das suas formas físicas (sólida, líquida ou gasosa) implicaria na extinção das condições de existência da humanidade, favorecendo a ocorrência do que Ilya Prigogine classificou como a morte térmica do planeta. “Aquela decorrente da equalização de todas as temperaturas, e que extingue a capacidade de se produzir força motriz a partir de uma fonte quente e outra fria (Prigogine, 2001).”

A importância desse insumo essencial para a vida é cada vez maior, e isso se reflete nos mais de 150 parâmetros usados para o enquadramento dos corpos de água superficiais e o acompanhamento da sua qualidade para diferentes usos (CONAMA 357).

A gravidade da situação das reservas de água potável no planeta Terra pode ser bem entendida com a seguinte analogia: Imaginemos que toda a água existente na Terra estivesse contida em uma garrafa com volume de dois litros. A água doce, pronta para consumo humano, disponível em rios e lagos representaria menos de três gotas do total, ou seja, 0,144 mL.

Essa avaliação foi feita a partir dos valores das reservas de água e da sua distribuição no planeta Terra, mostradas na Tabela 1.

 

Tabela 1: Distribuição da água na Terra

Fonte da água

Tipo

Volume (Km3)

Fração de água potável (%)

Fração do total (%)

Oceanos, mares e baías

salgada

1.338.000.000

---

96,5

Calotas, glaciares e coberturas permanentes

Salgada e potável

24.064.000

68,7

1,74

Água profunda

 

23.400.000

---

1,7

 

Potável

10.530.000

30,1

0,76

 

Salgada

12.870.000

---

0,94

Umidade do solo

 

16.500

0,05

0,001

Geleiras e gelo profundo

 

300.000

0,86

0,022

Lagos

 

176.400

---

0,013

 

Potável

91.000

0,26

0,007

 

Salgada

85.400

---

0,006

Atmosfera

 

12.900

0,04

0,001

Pântanos

 

11.470

0,03

0,0008

Rios

 

2.120

0,006

0,0002

Água biológica

 

1.120

0,003

0,0001

TOTAL

 

1.386.000.000

---

100

Fonte: GLEICK, P.H. Water Resources. In Encyclopedia of Climate and Weather, vol. 2, ed. by SCHNEIDER, S.H, Oxford University Press, New York, 1996, pp. 817-823.

 

A poluição pode inicialmente estar presente em qualquer uma das três grandes matrizes, ou seja, ar, água e solo. Porém, a médio e longo prazo, boa parte do material indesejável será transferida para os diferentes corpos d’água, repetindo de certa forma o processo de salinização que há milhões de anos vem ocorrendo na natureza.

Então, a água não desaparecerá. No entanto, a chamada água potável, própria para consumo humano, terá um custo cada vez maior, ditado pela necessidade de sua purificação. Esse custo é decorrente da maior quantidade e complexidade dos poluentes, que simplesmente expressam os novos materiais introduzidos em nosso cotidiano. Por exemplo: as indústrias buscam por embalagens cada vez mais leves e resistentes à radiação, à temperatura, à agentes químicos e à agentes biológicos. No entanto, quando são descartadas é exigido que, no meio ambiente, a sua degradação transcorra de forma rápida e completa.

Embora estejamos voltados para a poluição causada por agentes químicos, os agentes biológicos não devem ser esquecidos. No final do século XX, a Organização Mundial de Saúde - OMS fez uma estimativa de morbidez e mortalidade de doenças hidricamente veiculadas e chegou a números estarrecedores. A Tabela 2 exibe parte desses dados.

 

Tabela 2: Morbidez e Mortalidade por Doenças de Veiculação Hídrica

DOENÇA

MORBIDEZ

MORTALIDADE

Diarréia

1.000.000.000

3.300.000

Helmintos

1.500.000.000

100.000

Esquistossomose

200.000.000

200.000

Malária

400.000.000

1.500.000

Dengue

1.750.000

20.000

Tripanossoma

275.000

130.000

Fonte: The World’s Water – Table 2.2. World Health Organization, 1995, “Community Water Supply and Sanitation: Needs, Challenges and Health Objectives. “48th World Health Assembly, Geneva, Switzerland, 1995.

 

DESENVOLVIMENTO

É comum associar qualidade de vida ao consumo de energia, algumas instituições chegam a elaborar grandes tabelas usando o consumo per capita de energia elétrica nos diferentes países como um indicador de desenvolvimento social, veja Tabela 3. Porém, deve ser ressaltado que esse índice embora seja socialmente e economicamente correto, não é ambientalmente correto. Isto o impede de ser usado como um único indicador de sustentabilidade.

 

Tabela 3: Países com maior consumo per capita de energia elétrica

CONSUMO DE ENERGIA PER CAPITA (kWh)

PAÍS

CONSUMO

Islândia

28.057,4

Noruega

25.090,2

Canadá

17.321,0

Catar

16.453,9

Finlândia

16.123,2

Luxemburgo

15.686,0

Suécia

15.430,2

Kuwait

15.347,9

Estados Unidos

13.635,7

Emirados Árabes Unidos

12.411,6

Bahrain

11.365,9

Austrália

11.221,2

Fonte: http://earthtrends.wri.org/text/energy-rsources/variable-574.html

 

A água consumida no mundo pode ser dividida em três grandes setores: doméstico, indústria e agricultura. Normalmente, a área de serviços fica embutida no setor doméstico, por estar, na maioria das vezes instalada dentro da malha residencial urbana. A nítida vocação rural, assim como a oferta de água potável ainda precária nos centros urbanos dos países em desenvolvimento, pode ser entendida com o auxílio da Tabela 4.

 

Tabela 4: Principais usos da água

Uso

Países Emergentes

Países Desenvolvidos

Mundo

Doméstico

8%

11%

8%

Indústria

10%

30%

22%

Agricultura

82%

59%

70%

Fonte: http://www.theglobaleducationproject.org/earth/fresh-water.php

 

A principal demanda não é provocada pela água utilizada diretamente, por cada habitante de nosso planeta, para beber, tomar banho, cozinhar, etc. As necessidades indiretas são responsáveis pela maior parcela do consumo. São necessários, por exemplo:1.900 litros de água para produzir 1 Kg de arroz; 3.500 litros de água para produzir 1 Kg de carne de frango; 10.000 litros de água para produzir 1 Kg de carne de boi; 150.000 litros de água para produzir 1 automóvel de passeio; 280.000 litros de água para produzir 1 tonelada de aço. Em média, cada habitante dos países desenvolvidos provoca uma demanda, direta e indireta, de água de 1.200.000 litros por ano (Springway, 2012).

O valor da água potável, posta à disposição do homem, é comparável ao valor dos principais combustíveis usados nos veículos automotivos, conforme mostrado na Tabela 5.

 

TABELA 5: Custo comparativo da água em relação aos dois principais combustíveis fósseis

 

LOCAL

GASOLINA (R$/L)

DIESEL (R$/L)

ÁGUA (R$/m3)

EUA

1,39

1,48

7,56  Washington

BRASIL

2,62

2,01

4,44

Média

EUROPA

3,98

3,22

6,31

França

Fontes: Agência Nacional do Petróleo: www.anp.gov.br/preco/prc

www.worldbank.org/indicator/EP.PMP.DESL.CD

www.noticiasautomotivas.com.br/preco-da-gasolina-nos-eua-e-na-europa

http://www.showerandsave.com/water-prices-around-the-world/

http://www.snis.gov.br/PaginaCarrega.php?EWRErterterTERTer=69

 

O encarecimento se deve ao aumento da complexidade dos tratamentos necessários para sua adequação aos critérios de potabilidade, que envolvem cada vez maior número de parâmetros a serem controlados nesses processos. As Figuras 1 e 2 a seguir ilustram bem esse incremento.

Figura 1: Evolução, entre 1914 e 1966, do número de parâmetros regulamentados na norma de qualidade da água para consumo humano nos EUA

Fonte: Pinto (2006) adaptado da USEPA (1999).

 

 

Figura 2: Evolução do número de parâmetros para os quais são estabelecidos valores-guia nas três edições dos Guidelines for Drinking Water Quality

PACH: Padrão de Aceitação para Consumo Humano; INOR: Substâncias Químicas Inorgânicas que Representam Risco à Saúde; ORG: Substâncias Químicas Orgânicas que Representam Risco à Saúde; AGR: Agrotóxicos; DPSD: Desinfetantes e Produtos Secundários da Desinfecção

 

Fonte: Pinto (2006) – adaptado da USEPA (1999)

 

Hoje em dia, é possível usar o consumo de água como um indicador de sustentabilidade, por ele abranger as três vertentes compreendidas por esse conceito: social, econômica e ambiental. Já existem instituições que relacionam o consumo de água per capita para diferentes países, conforme mostrado na Tabela 6. O consumo de água potável está relacionado com duas importantes variáveis: a) tratamento; b) rede de distribuição. Esses dois parâmetros, no Brasil,  normalmente resultam de investimentos públicos em adutoras, estações de tratamento e rede de distribuição. O custo, embora muitas vezes subsidiados, são passados para o consumidor final. Com a qualidade decrescente dos corpos d’água em função de uma metropolização acentuada, uma agricultura e uma pecuária intensivas e um processo de industrialização crescente, o custo do tratamento tende a aumentar cada vez mais. Os novos hábitos também são fatores a serem considerados. Por exemplo, o recente aumento do teor de hormônio nos corpos d’água, provenientes em sua maior parte do maior consumo de carne pela população brasileira, assim como da crescente adoção de métodos contraceptivos, facilmente constatável nos balanços anuais apresentados pela indústria farmacêutica nacional.

 

Tabela 6: Consumo per capita de água em diferentes países

CONSUMO DE ÁGUA (m3/per capita/ano)

PAÍS

CONSUMO

Estados Unidos

1.682

Canadá

1.494

Austrália

1.250

Itália

771

Japão

696

França

674

Alemanha

572

Holanda

500

Noruega

489

Finlândia

479

Suíça

359

Suécia

335

Brasil

345

Fonte: http://www.conferenceboard.ca/hcp/Details/Environment/water-consumption.aspx?pf=true

 

A distribuição de fontes renováveis de água por países, conforme mostrado na Tabela 7, indica um grande potencial de desenvolvimento para os maiores detentores desse bem precioso. É possível observar que os denominados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) fazem parte desse grupo. A ocorrência de água em abundância possibilita a construção de hidrelétricas, a construção de fábricas, a navegação fluvial, uma agricultura intensiva, uma pecuária intensiva, além de condições climáticas mais amenas. Não era sem propósito que antigamente os locais para dar início aos aldeamentos eram escolhidos nas proximidades de corpos d’água.

 

Tabela 7: Países com maiores fontes renováveis de água doce

Fontes  Renováveis de Água em km3/ano

Brasil

8.233,0

Rússia

4.498,0

Canadá

3.300,0

Estados Unidos

3.069,0

Indonésia

2.838,0

China

2.738,8

Colômbia

2.132,0

Perú

1.913,0

Índia

1.907,8

Zaire

1.283,0

Venezuela

1.233,2

Bangladesh

1.210,6

Fonte: World Water, in: www.worldwater.org/data.html

 CONCLUSÕES

Tomando por base o consumo norte-americano de água e o aplicando para a atual população mundial, que é de sete bilhões de pessoas, chegamos ao valor de 1,18 x 1010 m3/ano. Uma decisão desse porte provoca de imediato a seguinte reflexão:

 

  • Necessidade de preservação de reservas
  • Necessidade de racionalização de uso
  • Necessidade de desenvolvimento de processos alternativos aos de água-intensivos

 

Uma consideração importante a ser feita é que o Brasil, tendo somente 2,7% da população mundial, detém 13% das reservas de água doce do mundo (Setti,2001). Isso nos torna detentor de uma das maiores riquezas do planeta. Não é difícil prever que a escassez de água, em determinadas regiões do planeta, será a causa dos primeiros refugiados ambientais.

 

BIBLIOGRAFIA

 CARVALHO, E. A. e ALMEIDA, M. C. (orgs), Ilya Prigogine: ciência, razão e paixão, EDUEPA, Belém, 2001.

CONAMA 357, CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE-CONAMA, RESOLUÇÃO CONAMA 357, de 17 de março de 2005.

PINTO, V.G. Análise comparativa de legislações relativas à qualidade da água para consumo humano na América do Sul. 2006, 186f. Dissertação (Mestrado em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos) – Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental, Belo Horizonte, 2006.

SETTI, A. A;et al. Introdução ao gerenciamento de recursos hídricos. Brasília: ANAEE; ANA, 2001. 328 p.

SPRINGWAY, Água no mundo, in: http://www.springway.com.br/agua_mundo.htm (copiado em 29/02/2012)

UNITED STATES ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY – USEPA. National Primary Drinking Water. Regulations: Long Term 2 Enhanced Surface Water Treatment Rule; Final Rule. Federal Register, Part II, 40CFR, Parts 9, 141 and 142. Thursday, January 5, 2006.

 

 

 

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